
Após vários amigos me perguntarem sobre o serviço público, tive a ideia de fazer esse artigo para ajudar a esclarecer as principais dúvidas. Vou começar pelas tendências e concluir com a minha opinião geral.
- Tendências
Há claras tendências sendo ocorrendo em relação aos concursos públicos:
A primeira que eu vou citar é a realização de provas por meios digitais e aumento do uso de IA nos certames. Essa é uma tendência que visa aumentar a abrangência e redução de custos dos concursos, bem como permite um melhor gerenciamento das provas.
A segunda tendência clara é o aumento da inclusão. Os concursos estão permitindo que candidatos concorram à cargos externos fazendo provas na sua própria cidade, o que diminui os custos para o candidato que só precisa investir em viagens, caso realmente for aprovado nas etapas iniciais do certame.
A 3° tendência é que os concursos vão buscar uma seleção cada vez mais personalizada dos candidatos, com auxílio dos algoritmos e também uma avaliação híbrida (online/presencial) em busca das chamadas soft skills (aquelas habilidades de relacionamento, resolução de conflitos, liderança, proatividade etc..), com ênfase cada vez maior em avaliações práticas.

- Mudança de perfil
Há muitos estereótipos e preconceitos em relação ao serviço público, pois muitos acreditam que são pessoas que “só querem encostar” e vivem com altos salários, mas a realidade é que os super salários em geral estão atrelados a cargos de elite e que muitas vezes são ocupados por indicação política, e não por mérito. Sendo assim, a grande maioria dos cargos atuais do serviço público não oferecem altos salários, benefícios e penduricalhos. Ademais, a administração pública vem passando por várias mudança ao longo dos anos.
Inclusive, a cada reforma administrativa, ou até mesmo via leis e decisões infraconstitucionais, servidores públicos vêm sendo cada vez mais cobrados em relação à produtividade, com ganhos mais atrelados ao desempenho, passando por avaliações mais rigorosas, além de perdas tanto de benefícios trabalhistas como previdenciários. Além disso, a transparência em relação a salário e processos administrativos, como as licitações, por exemplo, estão crescendo, o que torna o serviço público cada vez mais sujeito a fiscalização social.
Muito se especula sobre a possível perda de benefícios no servidorismo público devido a futuras reformas na administração pública, como, por exemplo, os rumores de perda de licença prêmio e estabilidade. Considerando a tendência que o Brasil vem tomando na última década, essa possibilidade é realmente presente, pois todo o mecanismo de compensar os déficits estruturais do balanço de pagamento do Brasil estão atrelados geralmente ao aumento da exportação, atração de capitais estrangeiros, controle cambial, ou ajuste fiscal. Ou seja, há vários mecanismos legais e pressões do mercado financeiro para que cortes nos gastos e investimentos públicos sejam realizados, gerando o chamado superávit primário, principalmente em período de crise. Isso significa, na prática, que há pressão institucional e econômica para redução de salários e planos de carreiras, principalmente para os cargos que desempenham atividades “meio” e, também, aqueles que não estão em áreas de carreiras consideradas estratégicas para o estado.
Entretanto, apesar da maior deterioração dos direitos do trabalhador do setor público, este ainda tem salários médios mais elevados que a iniciativa privada e são mais atrativos para quem almeja uma vida mais estável. Inclusive, muitos alegam que o tratamento ao trabalhador no setor público, em geral, é mais humanizado, tendo em vista os benefícios como licença prêmio e emenda de feriados, por exemplo, porém não encontrei pesquisas conclusivas sobre isso até agora.
Além disso, no serviço público costuma-se respeitar mais os limites de horário do trabalhador, sendo muitas vezes uma rotina menos extenuante e debilitante de trabalho. Não é por acaso que a concorrência pelas vagas no serviço público vêm aumentando expressivamente nos últimos anos, pois eu acredito que, o longo período de crise econômica pela qual Brasil vem passando desde 2013 tem piorado mais as condições do trabalhador no setor privado do que as condições no setor público, comparativamente, pois além da questão salarial, há a questão da estabilidade, carreira e saúde no trabalho. Não é por acaso que o regime CLT nunca foi tão rejeitado pelos jovens como hoje, virando até motivo de memes na internet.
- Minha conclusão
Os servidores públicos estão perdendo muitos benefícios trabalhistas e previdenciários nos últimos anos, inclusive o número de cargos comissionados e em regime CLT na administração pública vem crescendo proporcionalmente mais que o número de vagas em regime jurídico único. A dinâmica do serviço público também mudou, pois este está cada vez sendo mais cobrado por desempenho, tendo avaliação e formações mais rigorosas, e deve ficar cada vez mais parecido com as condições do setor privado, caso essas tendências das últimas décadas persistam. Além disso, há uma tendência dos concursos futuros terem seleção híbrida (presencial e online), com cobrança crescente a respeito de softs skills e conhecimentos tecnológicos. Inclusive, a digitalização do processo de seleção está tornando a seleção mais democrática, seja pela possibilidade de concorrer a cargos externos da cidade natal do candidato, que pode realizar a prova na própria cidade, ou pela ampliação do acesso à informação.
Outra tendência clara no serviço público é que as vagas para cargos efetivos e estáveis estão ficando cada vez mais concorridas, e eu acredito que isso se dá tanto pela diminuição de oferta relativa de vagas, quanto aumento da procura por essas vagas. No que se refere a diminuição das vagas para cargos efetivos em relação ao número de vagas temporárias e cargos comissionados, o aumento da privatização do setor público é um grande responsável sem dúvidas por essa tendência. Há também um aumento crescente do número de cotas diversas (raciais e ligadas a doenças), o que diminui relativamente a oferta de vagas para ampla concorrência. Pelo lado do aumento da demanda pelas vagas, a precarização das condições do trabalho, crise econômica e o maior acesso à informação e democratização da seleção podem ser os maiores fatores responsáveis.
Por fim, eu penso que ainda compensa sim seguir uma carreira pública e conheço muita gente feliz com essa escolha. Só não acho prudente achar que ter um cargo público vai dispensar você da necessidade de fazer um bom planejamento financeiro pessoal, pois o futuro da economia global e da nossa previdência social nunca foi tão incerto. Portanto, se você tem perfil ou tem a necessidade de trabalhar na administração pública, invista nesse sonho de carreira e boa sorte.
Sou Valdemar Almeida, autor do e-book “Conforto Financeiro” e estudioso sobre como as Ciências Econômicas podem ajudar pessoas a tomar melhores decisões. Espero ter ajudado de alguma forma. Se curtiu o conteúdo, inscreva-se nossa newsletter para acompanhar mais publicações, deixe dicas e compartilhe essa mensagem a quem precisa.





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