O Centro Histórico de Cuiabá vem perdendo, há décadas, o seu protagonismo como epicentro das principais atividades socioeconômicas da região, apesar dos esforços de tombamento e das restaurações patrimoniais. Além disso, a região central enfrenta uma série de desafios que geram problemas não apenas aos moradores e comerciantes locais, mas também dificultam a vida daqueles que passam por lá diariamente.

Ao trabalhar na região e andar bastante pelas ruas do centro, Guilherme Vasconcelos pode perceber o contexto delicado em que o centro de Cuiabá se encontra atualmente. Portanto, sendo aluno da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Mato Grosso, escolheu como tema de seu trabalho de conclusão de curso (TCC) investigar as causas reais dos problemas enfrentados por Cuiabá, bem como elaborar alternativas para o resgate do desenvolvimento econômico e social do Centro Histórico cuiabano.

Em seu Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado Reestruturação Econômica Urbana: Transformações Econômicas no Centro de Cuiabá (2026), constata-se que o problema do centro cuiabano não se restringe às transformações históricas ou à sua localização geográfica, mas, principalmente, a um arranjo institucional que não acompanhou as rápidas transformações da economia moderna. Nesse sentido, as políticas de tombamento preservaram relativamente bem a estrutura física dos prédios; porém, não foram acompanhadas de iniciativas capazes de dinamizar a economia. Além disso, observou-se a ausência de políticas econômicas integradas e de gestão eficiente.

Com a falta de integração e adaptação institucional, aliada à ausência de incentivos eficientes para o desenvolvimento do comércio local, os empresários da região viram seus custos e as exigências legais de manutenção aumentarem. Assim, o Centro Histórico foi perdendo gradualmente a sua competitividade em relação a outras regiões centrais da cidade, a exemplo dos shopping centers, que oferecem aos consumidores uma infraestrutura mais adequada em termos de logística, segurança, iluminação, climatização e flexibilidade de uso.

Guilherme Vasconcelos comemorando a aprovação de seu TCC com a sua namorada, Avanuza Pandora, que também se graduou em Publicidade e Propaganda em 2026.

Contudo, é importante ressaltar que o problema apontado no trabalho não é o tombamento em si, até porque o estudo cita exemplos bem-sucedidos no Brasil de reestruturação urbana por meio de políticas de preservação patrimonial. Nem mesmo as rigorosas regras de preservação ambiental constituem os verdadeiros gargalos ao desenvolvimento da região. A questão central apontada pelo autor é a “ausência de mecanismos institucionais capazes de articular preservação patrimonial, uso produtivo do solo e desenvolvimento econômico local”. Dessa forma, “[…] o centro preserva a sua materialidade arquitetônica, mas restringe excessivamente a apropriação econômica e social como espaço vivo de desenvolvimento”.

Assim, essas limitações se manifestam na presença de imóveis fechados ou subutilizados e na redução do fluxo de pessoas e mercadorias, fatores que comprometem o local enquanto centralidade de interação econômica, social e cultural. Em suma, mesmo diante de incentivos fiscais, como a isenção de IPTU para patrimônios tombados, a soma de fatores como “custos elevados de manutenção, exigências técnicas complexas e processos burocráticos prolongados” reduz a atratividade do centro como espaço de investimento produtivo, criando barreiras institucionais à permanência e à entrada de novos agentes econômicos no território.

Finalmente, a conclusão do trabalho apresenta algumas propostas para o enfrentamento desses problemas.

Em primeiro lugar, Guilherme propõe a melhoria da governança interinstitucional como ponto de partida para a reestruturação do Centro Histórico, sugerindo a “criação de um arranjo permanente de coordenação, como um Conselho Gestor específico para o Centro Histórico”, em busca de “reduzir conflitos institucionais, acelerar processos decisórios e compatibilizar preservação patrimonial com dinamização econômica”. Desse modo, o Conselho buscaria incluir a população — como lojistas do centro, moradores e usuários de serviços, entre outros — na construção de soluções para os problemas que os atingem diretamente, evitando que as decisões sejam fruto apenas de ações verticalizadas de um grupo seleto de gestores públicos.

Em segundo lugar, torna-se necessária a implementação de políticas estruturadas de incentivo à ocupação produtiva, incluindo linhas de crédito específicas, fundos de preservação com finalidade econômica, estímulos ao uso residencial no centro e incentivos à instalação de universidades, equipamentos culturais e empreendimentos criativos.

Por fim, os depoimentos de gestores públicos e cidadãos entrevistados ressaltam que a revitalização econômica depende da recomposição da vida urbana cotidiana. A perda de moradores, a redução das atividades noturnas e a precarização da infraestrutura básica fragilizaram o centro enquanto espaço de permanência, demonstrando a importância de políticas voltadas à moradia, à segurança pública, à iluminação, à mobilidade e à manutenção urbana.

Sendo um trabalho qualitativo que prioriza entrevistas de figuras públicas que ocuparam e ocupam cargos decisórios na capital, bem como pesquisa de opinião de cidadãos cuiabanos, o trabalho não busca esgotar o tema. Muito pelo contrário, Guilherme aponta que seu TCC pode ser um ponto de partida para outros pesquisadores que queiram se aprofundar mais nos dados econômicos e modelos que possam medir o impacto de cada variável elencada no desenvolvimento socioeconômico da capital.

Caso queira conhecer melhor a trajetória profissional e acadêmica de Guilherme Vasconcelos, siga-o no Instagram. Abaixo se encontra a referência de seu trabalho na íntegra:

VASCONCELOS, Guilherme Cândido da Silva. Reestruturação econômica urbana: transformações econômicas no Centro de Cuiabá. 2026. 47 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Economia) – Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2026.


Valdemar Almeida é professor e economista, autor do livro “Conforto Financeiro” e fundador do Blog Jornada 360. Clique no Jornada 360 e participe da nossa comunidade no whatsapp. Se você gostou do conteúdo, compartilhe com quem possa se interessar por este texto.


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