
Desde o crescimento meteórico do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), puxado pelo então balconista de farmácia e influencer Rick Azevedo, o debate sobre a redução da escala 6×1 tomou conta do Brasil. A pauta virou uma PEC, que foi aprovada por ampla maioria na Câmara dos Deputados e seguiu para o Senado, prevendo a escala 5×2, com a
redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, divergindo da proposta inicial da deputada federal Erika Hilton (PSOL/SP), que previa uma jornada 4×3, com carga horária máxima de 36 horas.
É consenso a observação sobre uma tendência histórica de redução da jornada de trabalho desde a Revolução Industrial, sendo uma pauta que ultrapassa a perspectiva unicamente econômica: trata-se de um debate civilizatório que discute qual tipo de contrato social queremos para o futuro.
Nesse contexto, o Brasil possui uma relação conturbada com o trabalho, sendo um dos últimos países a abolir a escravidão e, atualmente, um dos países com maior média de horas trabalhadas por ano, mesmo quando comparado aos demais países latino-americanos, como aponta José Luís Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador nível I do CNPq.
Nesse contexto, o empresário brasileiro teve poucos incentivos para investir em máquinas, equipamentos, softwares e processos capazes de incrementar a produtividade do trabalho humano, uma vez que contou com uma oferta abundante e barata de mão de obra. Essa grande oferta de capital humano se explica por vários fatores, como a imigração interna, especialmente no fluxo Nordeste-Sudeste; pela imigração de trabalhadores europeus na transição da escravidão para o serviço assalariado industrial; pelo forte aumento da produtividade agrícola, que acelerou o êxodo rural a partir da década de 1970 e liberou mão de obra para as cidades; e pela intensificação mais recente da imigração de cidadãos latino-americanos em busca de oportunidades no Brasil.
Além disso, o fato de o país possuir uma das maiores taxas de juros reais livres de risco do mundo (próxima de 10,18% ao ano nos últimos doze meses) funciona como um “freio de mão” para o investimento produtivo. Esse é o motivo apontado pelo professor José Luís Oreiro que explica porque a economia brasileira mantém um nível de investimento insuficiente para um desenvolvimento sustentável, atualmente em torno de apenas 17% do PIB. Assim, uma política mal desenhada pode fazer o Brasil, que é um país exportador, perder competitividade relativa entre concorrentes internacionais.
Algumas pesquisas empíricas sobre a redução da jornada de trabalho em países europeus e latino-americanos mostram, de forma geral, melhora na qualidade de vida dos trabalhadores fora do ambiente laboral, sugerindo também uma redução dos custos com saúde decorrente da diminuição de acidentes de trabalho e de casos de adoecimento relacionados à fadiga.

Contudo, apesar dos potenciais ganhos de longo prazo, estudos com diferentes metodologias reconhecem que a redução da jornada terá um custo inegável para o país. O que não encontra consenso entre essas pesquisas é a magnitude desse custo. Enquanto a Fundação Getulio Vargas (FGV), por exemplo, calcula uma perda de 2,6% na economia, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estima um impacto de cerca de 0,8% no PIB brasileiro. Tais diferenças decorrem de hipóteses distintas sobre produtividade, adaptação empresarial e dinâmica do mercado de trabalho.
Assim, enquanto o estudo do IBRE/FGV sugere a necessidade de aumento da produtividade para compensar as perdas geradas pela redução da jornada, o relatório do IPEA — que utiliza metodologia diferente — sugere que essa perda pode ser absorvida pela economia, da mesma forma que os choques provocados pelos aumentos reais do salário mínimo, observados a partir dos anos 2000, puderam ser acomodados ao longo dos anos.
Contudo, algumas empresas brasileiras já adotam voluntariamente a redução da jornada de trabalho, baseando-se em estudos empíricos que apontam ganhos de produtividade devido à tendência de queda do desempenho por hora trabalhada à medida que a jornada se prolonga muito.
Entretanto, é importante ressaltar o viés de seleção nessas pesquisas, uma vez que essas empresas possuem características peculiares que facilitam a adaptação a nova jornada. Logo, o diferentes setores da economia sofrerão impactos de intensidades distintas. Por isso, os questionamentos que, ao meu ver, precisam estar nesse debate são:
(i) Haverá disposição do Estado para construir um conjunto de políticas públicas capazes de oferecer assistência adequada às pequenas e médias empresas?
(ii) O desenho da regulamentação levará em consideração as diferenças entre os diversos segmentos da economia e as especificidades do Brasil?
(iii) O Estado será capaz de formular diretrizes que não sejam desvirtuadas pelo lobby e pelos conflitos de interesse de setores historicamente privilegiados e politicamente mais organizados?
Por fim, a experiência internacional mostra que não existem soluções universais. O sucesso ou fracasso dessa mudança dependerá da capacidade de desenhar uma transição gradual, tecnicamente fundamentada e sensível às diferenças entre os setores econômicos. Quanto mais qualificado for o debate público, maiores serão as chances de transformar uma demanda legítima da sociedade em uma política capaz de conciliar eficiência econômica e bem-estar social.
Valdemar Almeida é professor e economista, autor do livro “Conforto Financeiro”, colunista
do FTN Brasil e fundador do Blog Jornada 360.
Referências
OREIRO, José Luís. Jornada laboral e produtividade do trabalho: algumas considerações à luz do debate brasileiro sobre o fim da jornada 6×1. Rede Estação Democracia, 23 abr.
2026. Disponível em: <https://red.org.br/noticias/jornada-laboral-e-produtividade-do-trabalho-algumas-consideracoe
s-a-luz-do-debate-brasileiro-sobre-o-fim-da-jornada-6×1/. Acesso em: 3 jun. 2026 >.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Redução da jornada de trabalho teria custo similar ao de reajustes históricos do salário mínimo. Brasília: IPEA, 2026. Disponível em:
<https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/16263-reducao-da-jor
nada-de-trabalho-teria-custo-similar-ao-de-reajustes-historicos-do-salario-minimo>. Acesso
em: 3 jun. 2026.
DUQUE, Daniel. O impacto econômico imediato do fim da escala de trabalho 6×1. Rio de
Janeiro: Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE/FGV), 2026.
Disponível em:
<https://blogdoibre.fgv.br/posts/o-impacto-economico-imediato-do-fim-da-escala-de-trabalho-
6×1>. Acesso em: 3 jun. 2026.





Deixe um comentário