Imagem ilustrativa gerada por IA


A derrota para a Noruega e a consequente eliminação da seleção brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 marcaram o pior desempenho da camisa canarinho em 36 anos da competição. Entretanto, por trás das falhas táticas e dos erros evidentes em campo, a imprensa também aponta diversos problemas relacionados à gestão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).


Um dos principais problemas apontados por comentaristas e jornalistas esportivos é a ausência de planejamento de longo prazo. Nos últimos dez anos, a seleção brasileira foi comandada por seis técnicos diferentes, uma média significativamente superior à observada entre as dez primeiras seleções do ranking da FIFA.


Inclusive, Carlo Ancelotti, atual treinador da seleção, teve menos de um ano e meio
para preparar a equipe. Esse período é considerado insuficiente para implementar um modelo de jogo consistente, consolidar um elenco e desenvolver o entrosamento necessário para disputar uma Copa do Mundo.


Entretanto, a falta de planejamento de longo prazo não é uma característica presente somente em nosso futebol. Afinal, quantos projetos municipais são interrompidos após a eleição de um novo prefeito? Muitas vezes, independentemente da qualidade da iniciativa anterior, a novamadministração altera programas, prioridades e até mesmo as cores e a identidade visual da prefeitura para associá-las à sua própria marca política.

Localizada na Av. Brasil- CPA II


Outro exemplo da dificuldade brasileira em executar planejamentos consistentes é a perda da função estratégica do Plano Plurianual (PPA). Na prática, muitos PPAs deixam de orientar as decisões orçamentárias e passam a funcionar apenas como um requisito legal, sendo frequentemente ignorados durante a execução das políticas públicas. Soma-se a isso a deficiência na avaliação sistemática dos resultados dessas políticas e dos investimentos públicos realizados. Afinal, quais resultados concretos esses investimentos produzem na ponta, nas escolas, nos hospitais e nos demais serviços públicos?


Outra crítica recorrente à gestão da seleção brasileira refere-se à tentativa de incorporar um estilo de jogo que não corresponde à tradição histórica do futebol brasileiro ou, ao menos, de reproduzir modelos estrangeiros sem as adaptações necessárias às características que
fizeram do Brasil pentacampeão mundial.


Na administração pública, esse fenômeno encontra paralelo no chamado “mimetismo institucional e intelectual”: a importação de ideias, reformas, estruturas e teorias concebidas em outros países sem a devida adaptação ao contexto brasileiro. Um exemplo frequentemente citado é o das agências
reguladoras, inspiradas principalmente nos modelos dos Estados Unidos e do Reino Unido, mas que, no Brasil, são alvo de críticas relacionadas à captura política, à baixa capacidade regulatória e à limitada autonomia institucional.


Por fim, a fragmentação e a dificuldade de coordenação também aproximam os problemas da CBF daqueles enfrentados pela administração pública brasileira. As constantes disputas internas e as mudanças na direção da entidade enfraquecem a capacidade de formular estratégias duradouras e comprometem a estabilidade organizacional.


Na esfera pública, um dos exemplos mais conhecidos desse problema ocorreu durante a pandemia de COVID-19. Divergências entre União, estados e municípios dificultaram a coordenação de diversas ações, incluindo estratégias de vacinação, aquisição de insumos e definição de medidas sanitárias. Essa falta de articulação gerou insegurança e confusão em um momento delicado em que a população precisava de orientação.


Outro paralelo com a administração pública é a falta de integração das políticas de segurança. Cada estado adota diretrizes que muitas vezes não dialogam com a União, com uma perceptível falta de integração de banco de dados entre as diferentes instituições envolvidas e compartilhamento insuficiente entre as inteligências.


Por fim, uma das grandes lições que a Copa do Mundo pode trazer para a administração pública é que grandes resultados não são frutos somente de estrelas individuais. A vitória é resultado de uma cultura que fortalece o espírito coletivo, a coordenação, aprende com os erros e amplia os horizontes com uma gestão que conecta o presente com o futuro.


Valdemar Almeida é professor e economista, autor do livro “Conforto Financeiro”, colunista do FTN Brasil e fundador do Blog Jornada 360. Clique aqui e participe da nossa comunidade no whatsapp. Se você gostou do conteúdo, compartilhe com quem possa se interessar por este texto.


Descubra mais sobre Jornada 360

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Tendência

Descubra mais sobre Jornada 360

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo