Por Ricardo Carpintero e Roney Souza.



Palmeira exuberante, com mais de 20 metros, copas em pluma e enormes cachos que marcam a paisagem tropical, a macaúba é coisa brasileira há séculos. Batizada pelos povos indígenas muito antes de despertar o interesse de cientistas e investidores, a macaúba (Acrocomia aculeata, ou fruto da caca amarela, em tupi) é uma palmeira nativa do Brasil, comum no Cerrado e em áreas de pastagem. Da polpa e amêndoa dos cachos de frutos pequenos, menos de seis centímetros, se extrai óleo, destinado às indústrias de alimentos, cosméticos, sabões e biodiesel. É um caso de sucesso e, após 35 anos de pesquisa de ponta contínua em universidades públicas, virou matéria-prima real para a descarbonização da aviação global.

Os elementos básicos da cadeia são nossos: a planta, o conhecimento, as instituições. Além do financiamento à pesquisa, o entrave a vencer agora é articular, de forma autônoma, o caminho do campo e do laboratório ao mercado.

Quando investidores dos Emirados Árabes chegaram em 2023 para anunciar uma biorrefinaria de R$ 15 bilhões na Bahia, traziam um elogio: o trabalho mais difícil já estava feito no Brasil. A ciência básica estava resolvida; faltava a engenharia aplicada. Se a parte mais cara e arriscada já tinha sido vencida aqui, por que o passo seguinte precisou de capital externo para sair do papel? E quantas outras macaúbas estão paradas no mesmo ponto?

Na COP28, em Dubai, companhias do mundo firmaram a meta de emissões líquidas zero até 2050 e elegeram o combustível sustentável de aviação (SAF) como o caminho prático: um querosene biológico que entra na turbina sem adaptação. A macaúba foi escolhida por ser nativa, render de sete a dez vezes mais óleo por hectare do que a soja, suportar solo degradado e se integrar a lavouras e à pecuária.

A ciência brasileira lapidou o conhecimento popular para viabilizar o cultivo da macaúba. Dos quase 700 artigos científicos sobre a planta indexados no Scopus, 85% têm ao menos um autor de instituições brasileiras. Dois pesquisadores dão rosto à frente: Sérgio Motoike, da Universidade Federal de Viçosa, e Carlos Colombo, do Instituto Agronômico de Campinas. Motoike e seu grupo resolveram o problema da dormência das sementes, gargalo que travava o plantio em escala. Colombo e sua equipe lideraram a caracterização genética da espécie e a seleção de plantas com mais óleo e menor porte. Sem essa rede, a macaúba ainda seria extrativismo. Com ela, virou cultura semi-domesticada e pronta para o campo.

Os primeiros passos comerciais vieram antes, em parte de fora: por volta de 2007, a Entaban, de capital espanhol, e a Acrotech, hoje parte da S.oleum, fizeram os primeiros plantios-piloto. A rota para a aviação foi desenhada na Alemanha. Entre 2011 e 2014, o Centre for Sustainability Management da Universidade Leuphana conduziu um programa para identificar uma matéria-prima de bioquerosene capaz de descarbonizar a aviação sem desmatamento; a Lufthansa, pressionada pela regulação europeia, acompanhava como parte interessada. A escolha recaiu sobre a macaúba.



Em 2015, após essa pesquisa nasceu a Inocas, startup germano-brasileira com capital semente do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Climate Investment Funds. A Inocas foi a primeira a plantar a espécie em escala comercial integrada à pecuária, em pastagens degradadas, hoje com mais de 2 mil hectares em Minas Gerais e presença no Pará. Em paralelo, a ACROS forneceu mudas em escala.

O salto industrial veio em 2023, quando a Acelen Renováveis anunciou, junto à biorrefinaria de Mataripe, o plantio de 144 mil hectares de macaúba na Bahia e em Minas. O Brasil ofereceu a planta, a ciência e a terra. Brasil e Alemanha viabilizaram um projeto piloto de plantio. Os Emirados Árabes financiaram a indústria.

Esse padrão de coordenação não foi só comercial, mas de pesquisa. Com financiamento alemão, Johannes Moessinger, da Universidade de Hohenheim, percorreu o Brasil e o Paraguai para mapear a pesquisa sobre Acrocomia, gênero a que pertence a macaúba. A continuidade coube ao Acrocomia Hub, grupo de pesquisa de Hohenheim.

Foi preciso um alinhamento de interesses internacionais (pacto climático, demanda europeia, capital árabe) para que a fase piloto, o lançamento comercial e o escalonamento acontecessem. Que lições essa história deixa para uma política de inovação que permita ao Brasil gerar valor dos próprios bioprodutos, sem esperar outro alinhamento planetário para viabilizar a próxima macaúba?

A primeira lição é de autoconfiança. A bioeconomia é uma rota tecnológica ajustada ao Brasil, e estamos nela há longa data. O Proálcool entregou o etanol mais barato do mundo, com as universidades gerando ciência, a Petrobras como compradora-âncora e o BNDES financiando a destilaria. Cinco décadas depois, o país é competitivo globalmente em biocombustível, agricultura tropical e celulose plantada, e a macaúba aparece como próxima fronteira desse mesmo paradigma.

A história mostra que a rota funciona, mas falta refinar o que ainda não aprendemos. Na macaúba, esse aprendizado ainda é parcial. O Brasil já tem programas que tratam o biocombustível como prioridade, do RenovaBio ao ProBioQAv, mas falta a costura que ligue, com a agilidade necessária, ciência madura, capital de risco, demanda firme e empresa-veículo num mesmo ciclo.

Há quem diga que isso é apenas a divisão internacional do trabalho funcionando: o Brasil entrega clima, terra e ciência agronômica; o resto do mundo entrega capital e demanda. Mas essa divisão não é estática. O Brasil já subiu degraus toda vez que articulou pesquisa, regulação e indústria: hoje vendemos tecnologia agropecuária e etanol, não só matérias-primas.

A macaúba acrescenta um aprendizado a essa lista ao deixar visível onde a costura nacional ainda falha. O ativo continua aqui: a palmeira nativa, a ciência madura, o agricultor brasileiro. A próxima espécie da biodiversidade brasileira com potencial industrial encontrará um país com mais uma rodada de coordenação aprendida. A pergunta deixou de ser se vamos fazer, e sim quanto tempo levaremos para conduzir essa coordenação por conta própria, sem abrir mão da cooperação internacional que nos trouxe até aqui.




Roney Fraga Souza é professor da Faculdade de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).



Ricardo Vargas-Carpintero é pesquisador no Departamento de Recursos de base biológica na Bioeconomia, Instituto de Ciências Agrícolas da Universidade de Hohenheim (Alemanha).


Descubra mais sobre Jornada 360

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Tendência

Descubra mais sobre Jornada 360

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo